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SDDS Rolê: Especial BICUDA

Dois anos foram o suficiente para a BICUDA fazer história no underground de Campinas. Idealizada pelo DJ Victin, a festa independente movimenta a cena local a ponto de virar polo de criação musical desdobrado em rádio online, a Rádio BICUDA, e selo, o BICUDA rec, cuja agenda de lançamentos surpreende de forma positiva desde a estreia com a residente Sheefit no EP “Janete” (2019).

Nascida durante momento político de conservadorismo e intolerância, a BICUDA surge como ato de resistência sócio-cultural em uma região carente de espaços de manifestação livre de corpos, simbolizada pela música somada à atitude das performers da casa Marjorie Saeki, Lana Voodoo, Veronik e Kara Catharina, que dividem espaço com outras convidadxs. O universo da BICUDA fomentou um espaço de atuação criativa longe de rótulos ou do conservadorismo de elite típico paulista. O projeto, que mantém edições itinerantes e também de rua, foi convidado para fazer residência artística no renomado MIS de Campinas (Museu da Imagem e do Som) e ganhou o título de trio elétrico mais representativo da última Parada Gay da cidade, conforme avaliação do jornal Correio Popular.


Capaz de transformar a conjuntura atual de adversidade em fator de união, a label da BICUDA trouxe a coletânea CONVID-99, definida como “um manifesto de urgência sobre a subjetividade de cada artista nesse momento delicado da pandemia. Existe uma importância muito grande de unificar esses artistas em um caminho só, com aproximação e afeto pelo trabalho artístico independente”. O trabalho chama atenção pelo lista de participantes: são 34 produtorx de vários selos e projetos, como Domina, Turmalina, Zona, Coletivo Plano, Mamba Negra, Caldo, Bandida, Kode, Meia-Vida, ODD, LPZ Records, Trava Bizness e outros, originários do Brasil e do mundo.

Neste sábado (2/5), rola uma boa oportunidade de sacar a proposta musical da BICUDA, por meio da transmissão especial na Veneno, a partir das 17h com Cashu no warm up. Em seguida, Victin (20h), Guillerrrmo (21h) Rod (22h) e Sheefit (23h).

Aproveitamos a oportunidade para trocar ideia com Victin, responsável pela criação da BICUDA e curador da coletânea.




Veneno – Quando surgiu a ideia de fazer a coletânea? Desde a ideia até execução tudo rolou em quanto tempo?  Deve ter sido um desafio e tanto, pois o número de artistas é grande

Victin: Comecei a pensar logo que entramos na quarentena, vi que precisava movimentar formas de conseguir dar continuidade aos projetos da BICUDA.

Tínhamos muitos planos para esse primeiro semestre, a última festa foi um pouco antes da quarentena e deixou uma sensação de que iríamos colher bons frutos na nossa trajetória de dois anos.

Eu fiquei um mês trabalhando todos os dias nisso, pensamos como poderíamos chamar atenção do público e contar com o apoio deles. É meio complexo, porque você precisa escutar cuidadosamente as músicas, então, este processo foi o que fez ter coragem para seguir com a coletânea. Ver os artistas se movimentarem em criar as músicas deu um grande gás.


Veneno: Você fez toda a curadoria da coletânea sozinho? Ou teve mais alguém que ajudou?

Victin: A maioria sim, a Saskia ajudou com alguns nomes da Região Sul que fizeram total diferença no composto da coletânea. Ela é foda.

Veneno: Quais foram seus critérios para escolher os artistas? Tem um recorte interessante de vários locais do país e outras pessoas de fora. Partiu mais de estilo musical, localização ou existiram outros motivos?

Victin: Não existiam critérios, o que eu espera dos artistas era que eles mandassem algo que tem a ver com a essência deles, e foi isso que aconteceu. Cada música tem a particularidade do artista, isso sempre mexe comigo, é colocar para fora o quê tem muito de você mesmo.

Foram artistas de cada canto do Brasil e alguns de fora, com a maioria eu já tenho algum tipo de relação, então ficou mais fácil, e mesmo com quem não tinha, passei a ter.  Foi muito bom conhecer novas faces.

Veneno: Quais são os maiores desafios em produzir um rolê em Campinas? Como é esquema de alvará, locação, equipamentos de áudio/luz, e bebidas? Quem faz parte do time de produção da Bicuda?

Victin: São muitos os desafios quando se fala de uma cena independente. Campinas tem muitas dificuldades porque não se conhece muito desse cenário, a cidade em massa tem o costume de frequentar clubes, então estamos caminhando. Mas  penso que conquistar o público aos poucos seja a jornada. 

As locações são em locais mais distantes, por conta do mapeamento da cidade. Sempre buscamos lugares exilados de aspecto industrial, foram poucas as vezes que repetimos as locações. Isso faz o público se dispersar, pois revelamos sempre no dia.

Os equipamentos são todos alugados na região, exceto a iluminação que fazemos com o Luscofusc desde a primeira edição. Ele é de São Paulo, não temos muitas pessoas que trabalham com luz na região. 

As bebidas nós conseguimos porque somos patrocinados pela Ambev, que dá suporte crucial para o projeto. O time é  meio curto, porque ainda somos peixinhos bebês. Eu praticamente faço a maioria das coisas, desde a curadoria até a montagem e desmontagem. É um trabalho duro para mim.  Além de produzir, eu preciso tocar, eu tento sempre dar o meu melhor.

Mas temos uma equipe fixa, 100% LGBTQIA+, que são peça chave para que tudo ocorra bem. A Hellora que faz o financeiro tem sido meu braço direito na produção, ela ajuda para que eu não  me sobrecarregue tanto. Temos também os amigos de prontidão para ajudar nos obstáculos que tendem a vir no decorrer das festas.

Veneno: De que forma a equipe está encarando esse período de quarentena? Vocês estão pensando em alternativas de suporte financeiro neste momento de pausa?

Victin: Estamos bem malucos, e sem saber como poderíamos ajudar neste momento com fundo de caixa zerado. Tenho pensado muito em como ajudar, creio que encontraremos uma solução.

Veneno: Provavelmente, a vida não será mais como era antes desta pandemia. Quais aspectos humanos você acha que serão mais afetados com tudo que está acontecendo no mundo? Ficaremos mais emotivos e passionais ou não? De que forma esta situação se refletirá na cena eletrônica?

Victin: Tudo vai mudar sem sombra de dúvidas. As pessoas estão sendo obrigadas a isso, os trabalhadores autônomos serão os mais mais atingidos.  Este é o tempo da compaixão, que estava esquecido por um bom tempo. O cenário eletrônico tem se reinventado com as apresentações em formato digital ao vivo, mas até quando viveremos de nada? Porque as lives não são monetizadas. Ao meu ver, somente voltaremos a tocar mesmo no próximo ano. A cabeça precisa funcionar para inventar novos projetos.

Veneno: O selo da BICUDA, a BICUDA rec, soltou lançamentos de produtoras mulheres com vasta experiência de atuação como DJ, a Sheefit e Perrelli, há planos de lançar outras mulheres?

Victin: Sim, elas são o meu orgulho. O foco é ter um lançamento por mês, e acho que vai rolar, viu.

Sim, sem dúvidas, existem muitos nomes que desejo lançar pela BICUDA rec

Veneno: Se precisasse resumir a linha musical da BICUDA rec, como você definiria?

Victin: Não tem muito uma linha. A minha curadoria é entender a música que o artista está a fim de jogar para o mundo. Pequenas coisas deste tipo me tocam muito, porque também eu amo todos os tipos de vertentes.

Veneno: Quais artistas atuantes na cena de Campinas você indicaria para o público conhecer?

Victin: Está surgindo uma gama de pessoas tocando na cidade, um fato muito satisfatório. A Hellora está arrasando nas mixagens, assim como o Zani e MØ.TA participantes da coletânea e talentosos produtores. Vale destacar os pupilos integrantes da residência BICUDA no MIS de Campinas (Museu da Imagem e do Som), onde rolou curso de discotecagem com a Marjo, Jaque e a Paula, que tem desenvolvido um som.

Veneno: Quem é responsável pela criação gráfica da BICUDA rec?
Victin: Desde a segunda edição o Arturo está junto, nós temos uma linguagem muito próxima, ele consegue entender o que os temas das edições significam. Esta conexão faz o trabalho ser bem fluído, ele é um designer foda, uma peça crucial para a BICUDA.

Reportagem: Danila Moura

Fotos: Recreio Clubber