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Fortalecendo o merchan


“Ocê é DJ?”, a pergunta carregada de sotaque mineiro pregou um susto. Eu estava na rodoviária de Uberlândia, interior de Minas Gerais, lendo um livro enquanto esperava o horário de entrada da diária no hotel. Fui parar lá por conta do festival Doidimai.

Inclua na minha taxa potencial de mau humor dez horas de ônibus aguentadas sem fumar um beckzinho sequer na estrada. Ao ver meu silêncio, enquanto eu pensava no motivo da pergunta, ele insistiu.

-Moça, desculpa incomodar, mas cê é DJ?
-Não
-Não mesmo? Poxa, achei que era
-Por quê?
-Ah, semana passada vieram uns DJs aqui para fazer uma festa, o som é diferente. E eles tinham esse chaveiro preso no pescoço igual ocê tem, por isso, eu perguntei. Desculpa se atrapalhei.
-De boas, amigo. Por acaso a corrente tinha estampada o nome Veneno?
-Isso mesmo! Cê conhece eles?
-Sim, to ligada. Eles vieram aqui semana passada fazer o showcase. Uma pena, perdi. Eles têm uma rádio online em São Paulo.
-Ah, não sabia que era uma rádio! Legal! Vou procurar na internet
-Amigo, agora quem vai incomodar sou eu. Por acaso você sabe onde tem baseado por aqui?
-Hum, saber eu sei, mas na rodoviária é complicado… Olha só, eu tenho uma ponta novinha guardada. É sua! E fala para eles que a festa foi boa!

De qual forma seria uma rede social fora da internet capaz de reunir amigos? Em comum, todos passam horas ouvindo ou fazendo som. Acredite, o cordão de chaveiro da rádio Veneno conecta pessoas no mundo real. Funciona mesmo.

Este é um exemplo para demonstrar qual é a brisa do merchandise musical. Além de divulgar artistas e fomentar projetos financeiramente, um produto personificado tem o poder de reunir pessoas com os mesmos interesses em lugares inimagináveis. Como numa rodoviária no interior de Minas Gerais.

Foram as “Bobby Soxers” pioneiras no que podemos classificar de “camiseta de banda”. Assim eram chamadas as estudantes de meias compridas fãs de Frank Sinatra nos anos 1940, muitas em transe rasgavam as roupas e escreviam os nome do cantor nos tecidos e até no próprio corpo. Há relatos não comprovados de que a primeira camiseta de banda real oficial foi produzida pelo fã-clube de Elvis Presley, pintada à mão, nos anos 50. Na sequência, os Beatles nos anos 60 abriram os olhos da indústria fonográfica para os altos lucros gerados com merchandise. Durante anos o grupo perdeu de rentabilizar produtos criados sob a assinatura deles sem autorização, numa época na qual de joias a toalhas eram vendidas com o logo da banda numa quantidade incalculável. Conforme dados da The Music Network, uma fábrica nos EUA vendeu, em um dia, 35 mil perucas dos Beatles no auge da banda em 1964, além de ter faturado milhões em função de um chiclete com os integrantes estampados na embalagem. Conforme estudos do historiador Glenn Baker, a banda AC/DC foi a primeira a faturar mais com merchandise do que a venda de ingressos numa tour mundial, nos anos 70.

Dois caras foram muito importantes no impulsionamento dos produtos de merchandise. Na biografia do Kiss, o produtor Bill Aucoin é citado diversas vezes como a pessoa que levou a frente a ideia de fazer bonecos do grupo após pedido do fã-clube. Até os dias de hoje, mesmo sem fazer shows, o Kiss fatura milhões vendendo preservativos, bolas de boliche e até caixão, tudo devidamente personalizado. Sem dúvida, eles são uma referência no assunto. Brian Eipsen, ex-gerente de uma loja de discos, fez os Beatles mudarem desde a atuação no palco, palavrões foram proibidos nas apresentações, até a indumentária. Os ternos alinhados entraram no lugar das jaquetas de couro e jeans surrado. Ao empresariar os Beatles, o produtor resolveu monetizar os itens com referências aos garotos de Liverpool. A banda começou a lucrar muito alto através da venda de objetos.

Entre as mulheres, um destaque é Vivienne Westwood, estilista ícone dos anos 80, devido a loja SEX, ponto de encontro e ditadora de tendência na época.Os punks detestavam a pose e glamour das bandas das décadas antecessoras. A contraposição seguiu a linha de um “anti-merchan”, coturnos surrados, camisetas rasgados e acessórios considerados repugnantes, tendências nas quais Westwood reinou ao incluir acessórios de bondage e fetiche. Também é preciso citar no quesito inovação a cantora Madonna. Ela chocou o mundo ao lançar, em 1992, um livro de fotos sensuais, o Sex, feito concomitante ao lançamento do disco Erotica. O merchan atingiu o primeiro lugar dos livros mais vendidos nos EUA, conforme lista do New York Times.

A era dos downloads fez os artistas diversificarem os produtos para lucrar em um momento que a renda advindo da comercialização de discos diminuiu bruscamente.
Criatividade não falta, como é visto no anel em formato de vagina da Grimes, estabilizadores de vinil uma peça de arte feita de acrílico com um cristal Swarovski e um pen drive com faixas do Jeff Mills da Axis Records, que já teve ferramentas automotivas no catálogo, um jogo da memória da Kompakt, faca da Northen Electronic, forminha de gelos do Omar S e até um fone de ouvidos para gatos do Deadmau5.

Seguramente, o ápice do fashionismo está com os rappers norte-americanos. Em dois dias de vendas de roupas da sua marca, Kanye West é capaz de faturar mais de um milhão. Isto aconteceu por causa da coleções limitadas de roupas assinadas por estilistas presentes nas mais importantes semanas de moda do mundo.

LOJINHA DA VENENO

De volta à realidade do merchan brasileiro, se você curte o som da Veneno, aproveite para fortalecer o rolê na lojinha. Pode ser a chave para um salve inimaginável por aí.

As camisetas e outros acessórios foram produzidas em parceria com a marca Cotton Project, criadora do programa Party Wave. A camisa estampada está entre as novidades da segunda coleção, que veio com novas estampas de camisetas e boné.

“A camisa surgiu numa época em que o segundo drop nem era para existir, só rolou por conta dela. Ficamos vendo memes da huge.dj.party.alerts resolvemos fazer start effects da Veneno. Por exemplo, colocamos a moto do Ervinha, que ele bebe e deixa lá estacionada na rádio por três meses. Tem o Beto, que o Rafa sei lá por qual diabos tem aquele boneco, mas ele está sempre presente. Rola o lance do Rappi, porque sempre acaba cerveja e acabamos pedindo mais. Outras referência são claras para quem frequenta o espaço tem umas piadas internas, como do DJ Harvey. Mas é melhor parar por aí pois algumas nem é bom falar.