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A Dona do Carnaval de São Paulo

“Você escolhe: eu ou o Carnaval”. Sem titubear, madrinha Eunice preferiu a segunda opção ao ser questionada pelo marido, o então Chico Pinga. Batizada como Deolinda, todo mundo a conhecia por Madrinha Eunice, graças aos 41 afilhados. Após visitar a Praça XI, nascedouro do samba, durante uma viagem à casa de parentes no Rio de Janeiro, não tinha quem lhe tirasse da cabeça a ideia de fazer o mesmo aqui em São Paulo.

Desta forma, em 1937, nascia a Escola de Samba Lavapés, primeira do gênero na cidade. Negra, filha de escravos, ela sempre teve muito orgulho de suas raízes africanas. Se existe alguém para ganhar o título de “Dona do Carnaval de São Paulo”, sem dúvida, o mérito é todo dela.

Fizemos uma entrevista com Rosemeire, neta da madrinha, atualmente presidente especial da escola. Confira no IGTV!

A dedicação à escola era tão grande, que seu cônjuge não segurou a onda. A cidade agradece, pois a determinação de Eunice foi essencial para solidificar o samba local, extremamente marginalizado nas origens africanas. Entre as influências do nascimento do ritmo está na Umbigada e no Samba de Bumbo, advindo de Pirapora de Bom Jesus, cidade visitada pela Madrinha, atraída pelas históricas Festas para Nossa Senhora do Rosário e para São Benedito, que reuniam escravos com seus instrumentos musicais em festas paralelas, configuradas como os “primeiros passos” do que viria a ser chamado de Carnaval.

Dentre os tipos de alojamento observados na festa do Bom Jesus, os mais interessantes eram os barracões, dois edifícios pertencentes ao santuário local, que foram, em período anterior, moradia de seminaristas e religiosos. Por ocasião da festa, a Igreja cedia seus barracões para abrigar os forasteiros, que eram em maioria negros. Nos barracões, compostos por dois andares, eram cobrados somente os aluguéis dos quartos no segundo andar, sendo que no andar térreo, de chão batido, nada era cobrado. Destes dois barracões existentes na cidade, um de menor dimensão apenas abrigava os forasteiros, ao passo que o segundo barracão além de também abrigar os visitantes, era palco da prática do samba de bumbo nos dias de festa.

No período de festa, traços religiosos e profanos contrastavam-se. A festa religiosa, em essência, consistia em procissões, em cumprimento de promessas e em missas ocorridas na Igreja matriz. A dimensão profana da festa, por sua vez, era caracterizada pelo samba de bumbo, elemento central dos festejos na cidade. O samba ocorria dentro do barracão com um grupo restrito de pessoas, de maneira que todos os sambadores deveriam ser integrantes de algum “batalhão”, denominação dada aos diferentes grupos de sambadores, provenientes de cidades específicas.

 

O samba de bumbo teve sua gênese e desenvolvimento nas fazendas de café do interior paulista no século XIX, sendo introduzido na capital paulista na passagem do século XIX para o século XX, período em que ocorreu um forte movimento de migração de negros, ex-escravos, vindos do interior para a cidade de São Paulo em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida. Na mesma época, chegaram os pandeiros,  curiosamente quadrados, pois eram instrumentos pequenos e fáceis de esconder pelos escravos nos navios negreiros.

O Samba de Bumbo, enquanto expressão cultural dispersa em diferentes regiões do estado de São Paulo, assumiu denominações e perspectivas de análise diversas por parte dos intelectuais que estudaram o tema. O ponto de intersecção entre as diferentes modalidades do Samba de Bumbo reside em sua matriz africana e em alguns elementos comuns entre elas, como o uso do bumbo como instrumento central do festejo. Instrumento muito presente em músicas nordestinas, o bumbo possui ascendência ibérica, sendo apropriado e re-significado pelos negros, agentes culturais do samba de bumbo no estado de São Paulo.


Após figurar entre as campeãs e ganhar títulos do primeiro grupo das UESP (União das Escolas de Samba de São Paulo), a Lavapés está no último grupo de acesso. Recentemente, o ator Aílton Graça ocupa o posto de carnavalesco da escola e deve trazer cada vez mais a bateria da agremiação às raízes sonoras africanas. Há duas décadas ele mantém um projeto social de resgate e aulas de ritmos africanos para crianças carentes, o Pirata Negro, nome incorporado agora ao da Lavapés.

Reportagem: Danila Moura
Fonte: Acervo do Arquivo Histórico do Estado de São Paulo